domingo, 30 de outubro de 2011

Hey! Teacher! Leave them kids alone!

Lembra do Castelo Ra-Tim-Bum? Então senta que lá vem a história. (Não, não tem nada a ver com o programa da Tv Cultura)

Gosto de estudar. Gosto mesmo. A leitura do que outras pessoas pensaram pode nos ser útil quando formos construir nossa própria imagem do mundo e a vida. Todas as formas de conhecimento tem algo válido a acrescentar. Exceto inglês, que eu acho uma língua tão prostituída. Aliás, falando nisso, eu fico meio, meio não, fico muito puto com qualquer tentativa de aliciamento do conhecimento. Conhecimento é um bem. Não pode ser tomado como uma prostituta, por exemplo, que se come e se paga sem ao menos saber seu nome, sua história, medos, esperanças. Sim, educação é a ponte que se atravessa a realidade até à liberdade, não um corpo que satisfaz seus desejos e frustrações. Inglês é uma língua prostituída porque o único objetivo que se tem para aprendê-la é para se fomentar o currículo, putz, tem tanto autor bom aí na língua inglesa e ninguém fala nada, Joyce, Hemingway, Kerouac, e ninguém fala nada de se aprender inglês como conhecimento. Só para currículo. Eu fico muito puto. Admito que a prostituição do Inglês foi feita por pessoas, e essa não é uma característica dessa língua. A maiorias das músicas que eu gosto estão em Inglês. Deixe-me explicar, por favor.

Tenho um desprezo intrínseco pelo dinheiro. E ficar tentando adaptar a própria realidade em busca de um bom currículo para conseguir dinheiro eu acho loucura. Desprezo mesmo. É só papel, caralho. Não te alimenta, não te dá vida, nem te faz respirar, não compra nada. Isso mesmo: dinheiro não compra nada. Mas Filipe, não é com dinheiro que as pessoas trocam as coisas que necessitam? Sim, é sim. Mas repito, em auto e bom som. Dinheiro não compra nada. Você que compra alguma coisa. Diferença. Dinheiro é muito importante sim. Quero, no futuro ter um bom emprego com o qual eu consiga tranqüilidade e segurança. Eu tenho dinheiro aqui na carteira, olhe, mas sei olhar para ele e dizer quem é o dono de quem. O que o dinheiro faz pelas pessoas não é nada comparado o que elas fazem pelo dinheiro. Tenho um certo nojo, portanto da educação que tem como objetivo o dinheiro. Não quero uma educação que não seja liberdade.

Quando eu me preparava para o vestibular, perguntei a um colega do colégio, qual seria seu curso escolhido: Direito. Pow, que bacana, mas o que tu pretende fazer na área do direito? Quero fazer concurso. Outra: Medicina, pra quê?, para assumir a clínica do meu pai. Particularmente, quando houve aquele acidente na região serrana, vi no jornal que estava sendo preparado um hospital de campanha. Médicos do exército e Médicos voluntários fariam operações de emergência e prestariam socorro às vítimas das chuvas. Pense como me deu uma vontade de fazer Medicina. E aí vem um cara que diz que quer fazer um curso porque terá emprego garantido. Perceba, ele está adaptando todo um modo de vida e anos de dedicação apenas para ter um salário garantido no fim do mês. Mas, você, leitor, pode questionar: Não é digno tomar uma escolha na vida a fim de se ter segurança financeira? Acho essa pergunta tão ambígua, que se torna capciosa mais para que a faz do que para quem a responde. Ele faz da vida o que ele quiser, mas eu acho uma sacanagem se usar da prática médica mais para crescer economicamente do que para salvar vidas. Ta aí um juramento que não me deixa triste:

Juramento de Hipócrates
"Eu juro, por Apolo médico, por Esculápio, Hígia e Panacea, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue:

Estimar, tanto quanto a meus pais, aquele que me ensinou esta arte; fazer vida comum e, se necessário for, com ele partilhar meus bens; ter seus filhos por meus próprios irmãos; ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprendê-la, sem remuneração e nem compromisso escrito; fazer participar dos preceitos, das lições e de todo o resto do ensino, meus filhos, os de meu mestre e os discípulos inscritos segundo os regulamentos da profissão, porém, só a estes.

Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça."

O juramento é bonito. Distante da realidade, mas bonito. Digo e repito, é bom ganhar dinheiro, pois, afinal, é preciso sobreviver, mas no final você tem que dizer quem é o dono de quem. Você não vai trabalhar toda a vida de graça, é claro, na Grécia quem trabalhava era escravo, mas também não usar sua profissão com objetivo único de ganhar dinheiro.

Não muito raro, também ficava muito puto quando alguém pergunta por que tem de aprender todas essas fórmulas de física e química se quer mesmo é ser psicólogo. Ou que cargas d’água tem que saber colocação pronominal se quer ser mesmo engenheiro. Antes eu ficava muito puto. Agora não, deixo o rancor guardado no coração mesmo. Sério mesmo. Putz, deve ser até ignorância minha mesmo, pode ser. Deve ser mesmo. Só que não consigo juntar a palavra liberdade com a justificativa que certas pessoas dão para fugir das coisas que não lhe agradam, ou pior, usando nesse contexto, o pretexto de dizer que a matéria que mais odeia não serve pra nada. Que não vê razão de estudar. Às vezes eu fico tão angustiado falando de certos assuntos, que me dá uma coisa, que não consigo concatenar as idéias direito. Vai um vídeo para a galera descansar.


À primeira vista, um desavisado olha pro título e pensa que finalmente chegou o teórico que dará base intelectual ao seu ódio à escola e assim terá uma justificativa para gazear as aulas. Muito pelo contrário, vejo o pensamento desse cara como quase que algumas revoltas minhas. Fala que não é um certificado que capacita um profissional mas sim o interesse e o conhecimento adquirido. Ele não critica o conhecimento em si, ele ataca é institucionalização dele. Eu nunca li esse livro dele, pra ser sincero, entrou pra minha lista. Mas, minhas revoltas, conheço bem.

Nunca gostei de escola. Sempre gostei de estudar. Do mesmo modo que um autor dizia "E parecia-lhe, mais do que nunca, que a humildade é o disfarce de sombrias iniqüidades", percebo muitas escolas como o disfarce para continuidade de uma sociedade preconceituosa e desigual. O educar é substituído pelo doutrinar. O lance do vestibulando que quer fazer medicina só pela clínica acaba se tornando mais um caso de vitória de uma ideologia filha da puta. Nas escolas por que passei, não lembro nenhuma sequer tentar me fazer pensar por mim mesmo. Exceto, às vezes, as aulas do Nélson Campos, que ademais, os alunos nem iriam usar muito, porque não caía no vestibular, então não tinha porque se aprofundar em assuntos críticos. O que era incentivado, pelo contrário, era uma espécie de competição, na qual o melhor aluno seria “o que quer alguma coisa na vida” e o resto seria os frentistas e empregadas do melhor aluno. E pela realidade que sei de outros colégios, a história não varia tanto assim. Certo que, se você for um aluno aplicado, estudioso, suas chances de ter uma vida confortável vão aumentar substancialmente, e de modo paralelo, você não gostar de estudar, as chances de você não conseguir boa condição de vida são igualmente substanciais. O foda é fazer disso um motivo para se depreciar quem não está de acordo com os padrões da escola. Ser alguém na vida acaba se identificando com ter um bom emprego, e dinheiro no bolso pode acabar se tornando o objetivo último de quem abre um livro para estudar. Isso é o que eu acho sacanagem. É a partir daí que a galera, porque não é instruída a gostar de estudar, mas sim estudar para ganhar dinheiro, acaba pensando que certos conteúdos, por não serem úteis na sua futura profissão, são irrelevantes e, quem sabe, até prejudiciais à sua formação. Isso eu acho uma sacanagem maior ainda, depreciar uma forma de conhecimento. É ignorância pura.

Estou pensando agora em alguns amigos meus, um familiar também, que nem terminaram o ensino fundamental e estão até bem de vida. Tenho medo de estar a ser ignorante também. Não posso discriminar alguém pelo fato de não gostar de ler, por exemplo. Poderei ser um ignorante da pior espécie. Mas também não consigo esconder a angústia de ver tanta gente tendo acesso à formas de conhecimento tendo como objetivo não a sapiência em si, mas a acumulação primitiva de capital, por assim dizer. E angústia maior ainda, saber que há tanta gente sem qualquer amparo por políticas de educação. A educação nesse país não é levada à sério.

Vocês estão sacando o que eu quero dizer? Tenho a impressão de que estou escrevendo a cada dia pior. O vídeo que postei, vai, portanto, ao encontro do que eu digo, na medida em que a escola não deve ser um lugar que prende o aluno ao sistema, que o torna um ser subserviente às necessidades do mercado. A escola deveria ser um instrumento de liberdade, aonde o aluno vai para aprender a ter consciência de sua liberdade e decidir por conta própria, e não condicionado por ideologias, a seguir o caminho que quiser, e onde o professor não vá apenas para conseguir levar comida para dentro de casa, mas também para ser um dos instrumentos que vai levar a liberdade à outras pessoas.

É com triste resignação que eu sei que o que falo é bonito, mas impraticável. A sociedade é complexa. Não posso imaginar que a razão de determinadas atitudes das pessoas seja apenas o produto de uma educação mal-intencionada. As pessoas são complexas. Até porque a própria atitude de uma pessoa pode convergir, por decisão autentica ou não, para que queira receber uma educação que se encaixe em suas necessidades existenciais, ou que só queria enxergar o que lhe convém. Seria ditatorial se eu quisesse impor uma liberdade que eu acredito como única. Tolice até. A busca pela felicidade já levou tanto a democracia à Atenas como Pol Pot ao Camboja.

As pessoas são complexas. E acho que é isso o que mais me atrai. E ao mesmo tempo o que mais me deixa triste. Mas a atração é irresistível.

Todos os projetos que eu tenho, tantos parecem impraticáveis. Talvez serei feliz somente no dia em que EU mesmo conseguir minha liberdade. Mas tenho também a impressão que só serei realmente livre quando não for mais que osso. Isso é só uma divagação. Das tantas que eu tenho.

Um comentário:

  1. até o conhecimento tem seu lado negativo, na medida em que elimina uma lacuna(a da falta de tal conhecimento, duh).e aí é quase instântaneo pensar 'owra, é um espaço preenchido, é positividade, incremento, é bom' e ainda nem fui atrás de pensar direito porque dessa cultura de pensar dessa forma.a questão é que, para alguns, a simplicidade do conhecimento, do saber, o saber simples, descompromissado, é algo positivo(vide um alberto caeiro) e, por outro lado, o conhecimento pode na verdade trazer coisas negativas(vide um alberto caeiro).
    quanto ao dinheiro/cursos, acho isso a maior babaquice dos defensores da educação para todos(não como direito, mas como dever) e concordo com a relação curso/emprego ser algo negativo.muitos vão pro ensino superior pelo diploma/emprego e não por um ideal meloso de ter relacionamentos com as crias do Conhecimento.qual o problema disso?talvez tenham prazer com outras coisas que ficar constatando que possui conhecimento intermediário em x, que pode melhorar em y, que deve ler z para entender abc.
    outras coisas a serem repensadas e parece absurdo fazê-lo : a visão negativa de escravo e de irracional.
    deu pra perceber que não consegue concatenar as idéias :)
    é muito fácil pensar que uma pessoa não se limita a um currículo, mas me diga que empresa, precisando de mão-de-obra em tempo hábil, vai conseguir avaliar cada grão de atributo que uma pessoa, dentre várias, tem para selecionar aquela que tem um currículo-real adequado?
    essa visão de que a escola é o culpado da falta de desenvolvimento intelectual dos alunos é tão legal...quem estuda realmente algo está aquém dos concurseiros profissionais.não aprendeu por si só na escola quem não quis, não foi atrás.é muito fácil deslocar uma possível culpa de si para o outro.
    e esse ideal de liberdade é tão fofo, tão colorido.a escola deve ensinar as pessoas a serem livres!haha, só se for uma liberdade inventada pela escola.liberdade é só mais uma palavrinha que algumas pessoas jogam láaaa na frente e que usam como pretexto para seguir vivendo.
    (toda essa baboseira é opinião, não deve ser levada a sério hehe)

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