domingo, 25 de setembro de 2011

Você tem que ser alguém na vida!


Quando estava passando uns dias com os meus pais, vi minha mãe brigando com o meu irmão. Ele tem 14 anos e está na nona série. Ela estava brigando com meu irmão porque viu que o livro de física dele está praticamente em branco. O colégio é caro. Meus pais suam muito para mantê-lo em um colégio caro. O livro foi caro. E ele nem tem consideração pelo esforço dela. É como se o que ela falasse entrasse por um ouvido e saísse por outro. 
Engraçado é que ela brigava comigo pelo mesmo motivo e eu agia da mesma forma.

Eu faço Jornalismo, mas acho que todo mundo aqui sabe que eu já fiz Engenharia Mecânica. Geralmente as pessoas dizem que uma coisa não tem nada a ver com a outra, perguntam como foi que isso aconteceu, o que meus pais disseram e coisa e tal. Foi uma decisão muito difícil. É muito difícil dar um outro rumo na vida.
Mais difícil do que tomar a decisão de abandonar uma faculdade é contar para os pais. Mesmo que os pais sejam compreensivos e seus melhores amigos, é muito difícil dizer que se largou uma faculdade. Quando você conta isso pra eles, é carta-marcada que lhe façam a pergunta E aí, o que você tá pensando em fazer da vida, então? Só que a pessoa faz essa pergunta pra si mesma a todo o momento, e ainda não sabe responder. Os pais ficam com medo.

Eu tenho uma teoria. Começarei chamando de vinteanistas as pessoas que são da minha geração. As pessoas que às vezes se juntam para ter aqueles momentos saudosos em que nos lembramos em como era bom assistir Cavaleiros do Zodíaco, jogar Mário World, comer Tortuguita. As pessoas que cresceram na década de 90.

Como, vinteanistas, sou feliz. Tão feliz que reclamo em como é pobre a infância de hoje sem o Doug e o Costelinha. Tenho tudo para ser feliz: Nunca faltou comida na mesa, estudei nas melhores escolas, ganhei bicicleta aos 5 anos de idade, tenho meu próprio computador e tudo mais. Minha mãe diz que quando ganhou a primeira bicicleta que ela já fazia faculdade. Nunca faltou nada para mim. Não sei o que é fome. Nunca precisei deixar a escola para trabalhar. Não, ainda assim, contrariando o que disse no começo do parágrafo, eu não sou feliz. Vivo angustiado, até.

Anos oitenta, a década perdida.
A vida na década de 70 e 80 não devia ser fácil, viu? Creio que era bem difícil. Ditadura militar, depois uma redemocratização bem cometida, tudo isso banhado numa crise econômica desgraçada. Penso que era difícil ser jovem naquele tempo. Começava-se a trabalhar cedo. Meu pai conta que começou a trabalhar aos 14 anos, dirigindo um caminhão do meu avô. Minha mãe conta que passou um ano sem estudar, porque meus avós não tinham dinheiro para pagar um cursinho para duas filhas. Minha tia estudou primeiro, enquanto que a minha mãe trabalhava para a pagar o cursinho da irmã. No ano seguinte a minha tia passou no vestibular e começou a trabalhar para poder pagar o cursinho da minha mãe. Interessante é saber que elas só tinham uma calça jeans para as duas. Quando uma voltava para casa, tirava a calça, engomava para secar o suor e dava para a outra vestir e ir trabalhar.

As dificuldades eram reais e a fome era algo que era realmente factível. Ao menor descuido ela podia aparecer. Creio que é consenso que os pais dão aos filhos tudo o que eles não puderam ter. O maior medo dos pais dos vinteanistas é ver os filhos passando dificuldades. O pai vai então dar para as crias tudo o que a vida o negou no seu tempo.



Agora, a fome para os vinteanistas é algo distante. O cara sabe que ela existe, mas nunca a sentiu. Existe talvez ainda na tela da televisão. Ou num canto escuro da cidade. O vinteanista, nós, eu não sei o que é passar dificuldade.

Há um consenso na cabeça dos vinteanistas que é necessário primeiro ter estabilidade econômica para depois se pensar em constituir família. Era o que eu vivia ouvindo os meus pais falando. Se formar, ter um bom emprego, mestrado, doutorado, se possível, para só depois disso, e olhe lá, pensar em se casar e ter filhos. Hoje a gente tem isso como algo muito natural. O interessante é que com os nossos pais foi o contrário. A maioria dos pais dos anos 80 primeiro constituiu família para só depois conseguir estabilidade financeira. Outro medo dos pais é que os filhos repitam isso. O sexo, na minha visão, foi tratado mais como algo para ter medo do que para ser aproveitado. Com 20 anos na década de 80 já se devia ser alguém na vida, sustentar uma casa, quem sabe até um filho. Eles sabem como era difícil ser jovem e pai ao mesmo tempo. Eu mesmo nem cogito a possibilidade de ser pai agora. O medo de uma gravidez indesejada é quase tão grande quanto ver o filho passando fome. Novamente, o medo que os filhos cometam o mesmo erro.
Quando eu, Filipe, era pequeno, 12, 13 anos, era um idealista nato. Queria salvar o mundo com o meu socialismo. Queria mesmo ser Che Guevara, no fundo. Meu pai dizia que era bom querer ajudar os outros, mas que eu não me esquecesse que o Che primeiro fez faculdade, de medicina, e depois, me explique como é que sonho trás comida pra mesa? pode viver de sonho não, tem que estudar. Depois arrumar um emprego. Quando conseguir tiver salvado a própria existência, aí sim, poderia pensar em salvar uma outra pessoa. Não, não é questão de capitalismo ou comunismo. Os pais só querem que o filho aprenda, à maneira que lhes foi ensinado, que sonho não enche a barriga de ninguém, e que ter dinheiro é importante. E, à sua maneira, ele estava certo.

Só que nascemos, vinteanistas, num período mais ou menos estável para a economia. Já não é tão difícil viver quanto na década perdida. Praticamente não há inflação.  A estabilidade econômica traz o lazer e a segurança que são o pré-requisito para o sonho e a divagação. Não precisamos mais ter medo de passar fome para seguir um caminho na vida. Nossa batalha diária é a espiritual. Todas essas calças e blusas no meu guarda-roupa não me deixam feliz. Ter carne na mesa todo dia é algo que não faz diferença porque eu sei que tem amanhã vai ter carne de novo. E, por mais trágico que isso possa parecer, creio que é assim mesmo que ocorre dentro das cabeças dos vinteanistas. É o que acontece com a minha, no inconsciente, creio eu.
Minha preocupação maior, nesses dias, é terminar de ler o livro Raízes do Brasil, do Sérgio Buarque de Holanda. Para tirar boa nota e passar na disciplina da faculdade? Não. Nota mesmo é o que menos importa, é apenas um detalhe. Leio porque é importante para a compreensão do país, poxa. Um país cheio de problema e eu vou me preocupar com nota? Pow, sacanagem. Deixa eu ler aqui o Raízes pra eu ter propriedade pra entender de onde vem esse caráter sacana dos políticos? E mais, por que a gente vota neles?

Penso que mesmo assim, pode-se garantir um emprego sim, com essa filosofia de vida. Deixando de se preocupar com nota, IRA¹, se bem visto e se vestir bonitinho, pode-se até não conseguir ser bem visto pelos professores, mas com certeza são preocupações a menos que a pessoa tem na vida. A vida já é tão dura, pra que se preocupar com besteira? Vamo aqui assistir um filme. Vamos pro bar comentar como esse livro é massa. Isso dá muita corda à muita conversa. A pessoa é até capaz de ficar inteligente, penso eu.

Percebem em como as preocupações mudaram de foco?
Não é que uma geração está certa e a outra errada. Não é isso.
É só o discurso que muda. É muito mais fácil lidar com o outro se você compreender como a cabeça dele funciona.
Vocês estão me entendo?

A minha mãe só sossegou quando fez o meu irmão ficar vergonha e ficar a tarde e a noite trancado no quarto fazendo os exercícios em branco. Quando ela foi dormir eu fui falar com o pivete. Disse tudo o que escrevi nessas linhas mal-escritas. Incentivei a ele estudar só se ele quisesse. Nisso de falar como foi a década de 80 no Brasil, fui explicando pra ele história, passei para desintegração da União Soviética, depois expliquei pra ele o que era capitalismo, passei para revolução técnico-científica, Issac Newton e tudo mais. Tentei explicar que tudo é mais ou menos conectado. Estudar física pode lhe fazer compreender a estudar história. Sim, eu, Filipe, acredito que sim. Meu irmão gostou de saber que se estudar pode acabar ficando tão inteligente quando o irmão-sabe-tudo. Penso que agora ele tem um motivo melhor para aprender todas aquelas fórmulas do Movimento Circular Uniforme.

Dizer que o livro e mensalidade eram caros não ajudou em nada. Nem comigo no meu tempo, nem com o pivete agora. Se o livro tivesse sido identificado como símbolo da liberdade e compreensão do mundo, aí sim, eu poderia ter sido um bom aluno quando criança.

Comigo, eu mesmo não ligo muito se vou conseguir diploma ou não. Gosto de ir para a faculdade mais para conversar com meus amigos e trocar uma idéia com o pessoal dos outros cursos do que para assinar a lista de presença. Eu não sei pra onde isso pode me levar, mas é o que me faz acordar todo dia e pegar um ônibus lotado. E no dia que eu não estiver mais afim, mudo de curso de novo.



__________________
¹ IRA: Índice de Rendimento Acadêmico ou O modo pelo qual a UFC encontrou para medir a inteligencia dos alunos.

Esse texto foi escrito ao som de Titãs, Cartola e Javipior

3 comentários:

  1. Num é que tu conseguiu organizar te brainstorm direitinho?!

    Eu também sou uma vinteanista e, nossa, como isso me atormenta!
    E, com tema de pais, eu sou bem ressentida.
    E eu também tenho uma teoria. Eles se desesperam tanto com as situações diferentes que tentam relacionar com a mesma referência que eles tiveram, por isso que acabam nos enlouquecendo (pra não escrever outro termo mais forte).

    No mais... ótimo post. Identifiquei-me bastante com ele.

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  2. CARA,amei teu post. É bem isso mesmo, as ideais ocilam um pouco, mas lá no fundo acho q todos divagam sobre o mesmo. Ñ tenho exatamente 20 anos, mas eu vivi sempre ligado a pessoas mais velhas, principalmente meu irmão, e passei por mt disso.
    Enfim, Filipe, ótimo post mesmo, vou começar a ler com frequência, foi instigante!

    De Júnior Souza, bixo de Publicidade.
    (Só coloquei como anônimo, pq tava com preguiça de entrar na conta do Google!)

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  3. Também me identifiquei com os vinteanistas... mas penso que não seja, necessáriamente, questão de geração.
    Tenho amigos de vinte anos que tem filhos, empregos q pagam um salário mínimo e nenhuma perspectiva de curso superior... acho q quando os filhos deles crescerem vai ser o mesmo olhar sofrido de "estude pra ter um futuro melhor q o meu". É freud's!
    Mas gostei do post!^^

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